quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Autobiografia de Irundy Dias( continuação) p3


Enquanto a nossa vida seguia rotineira, Papai por sua vez, já formado, ficava procurando locais
onde  trabalhar na nova  profissão, pois assim que terminou a Faculdade de Medicina, afastou-se  da Casa de ferragens Eduardo Fernandes.O primeiro convite veio de Maragogipe, através de uma carta de tia Dedé, irmã de Mamãe, explicando que  em sua cidade estava necessitando de mais médicos, pois aqueles existentes  não davam conta do recado, pois só a fábrica de charutos e cigarrilhas Suerdick, com inúmeros empregados de forma  direta e indireta, absorvia uma grande quantidade de pessoas. Papai, ao invés de ir só, achou de nos levar em sua companhia. Ressalte-se também que  filha mais nova de nome Nair, hav ia falecido há poucos dias atrás. Então a nossa família composta com Papai, Mamãe, Aryolinda e eu seguimos para uma  primeira aventura.

Ficamos hospedados na própria casa de tia Dedé, esposa de tio Anisio e já estava com os seguintes filhos: Fernando, Dalva, Orlando, Diva e Nelson.

Lembro-me muito bem, que a casa era assobradada e ficava próxima à  padaria de tio Anisio onde pela manhã,  íamos assistir os operários pisotear a massa  dos pães, que era envolta por um tipo de pano bem grosso, para que não houvesse contato  dos pés deles com a massa. Dali,  a massa era levada aos cilindros, até  que ficasse no ponto de ser levada ás mesas, onde era cortada nos tamanhos desejados para os diversos tipos de pães . Havia também um rudimentar fabrico de caramelos. Nesse mister, Fernando., Orlando iam a escola pela manhã, enquanto à tarde, já com os pães prontos, ficávamos atrás do balcão, ajudando a tio Anisio a vendê-los.
Recordo-me de uma passagem  INUSITADA: na hora do almoço, estávamos à mesa: Fernando,
Dalva, Orlando, Diva, Nelson, assistido pela babá e eu. Alimentávamos de uma lauta feijoada, quando em dado momento, Dalva saiu da mesa correndo em direção ao primeiro quarto perto da sala  e de lá gritou bem alto para que todos ouvissem:
---Achei um   CABELOUROI !  Achei um  CABELOURO !    Venha ver Diva !  Venha ver  Diva !

INUSITADA  : Que não é comum aos padrões conhecidos, Ocorrência incomum no dia a  dia .

CABELOURO :   ligamento  que vai da cabeça  à   extremidade  da coluna  vertebral   do boi.
No folclore brasileiro, quem comer  cabelouro , fica bonito  e especialmente se mastigá-lo  atrás da porta

Como começa a vaidade da criança. Dalva, minha prima, estava  com uma idade aproximadamente entre 8  à 9  anos

                                                      x. x. x




Quando o tempo estava bom, íamos até o cais assistir  a chegada do VAPOR, que fazia  a linha Salvador- Cachoeira e vice-versa. Interessante será frisarmos que o referido meio de transporte, só poderia passar por ali, quando a maré estivesse cheia, pois do contrário, ficaria correndo o risco de  encalhar  na areia. Era uma festa  para todos nós, vermos uma pessoas chegando de viagem, enquanto outras embarcavam.  Quando a maré estava baixa e que a areia estava descoberta, o pessoal dizia:
--- Vamos até as coroas tomar banho ?
Ir até as coroas só fui uma vez e assim mesmo de canoa.  Embora aquela parte da água pertencesse ao rio Paraguaçu, o seu sabor era salgado, devido a presença forte do Oceano Atlântico.
Depois de uns dois meses de experiência, tudo voltou à estaca zero
Tio Anisio com fortes tendências políticas quis fazer uma média  com os seus amigos e compadres e certo dia, Papai  negou-se a  atender  a  um dos seus pedidos, advindo  um certo desentendimento entre ambos e daí foi arrumar as malas de volta a Salvador, em meados de 1937. Em setembro ganhei  o primeiro irmão, cujo nome foi Silvio Caetano em  homenagem ao Santo.
Com essa reviravolta, saí prejudicado, pois não fui à escola nesse ano e no  seguinte, ou seja em 1938, recomeçaria os estudos para fazer o segundo ano primário.

Quando 1938 começou e quando pensávamos que mais um ano iria embora, eis quem chega a Salvador, depois de mais uma de suas eternas viagens pelo sertão de Bahia e norte de Minas. Tio Julio Dantas, esposo de Tia Edite, uma outra irmã de Mamãe. Com  grandes ideias , para Papai, primeiramente fizeram uma reunião familiar, entre tio Julio, tia Edite, Papai e Mamãe.
Depois de ouvirem todas os pormenores, sobre o local, o tipo de viagem  que iriam fazer,a acomodação e mais alguns detalhes essenciais, Mamãe se fez ouvir:
---Tudo bem , mas dessa vez Ary  irá só, para não acontecer de novo , como  ocorreu em Maragogipe. Se você gostar, na sua próxima viagem irá a família toda. Em caso contrário, partiremos a uma nova aventura.
Com tudo planejado, tio Julio pediu  um tempinho, enquanto ele se organizava , junto às casas comerciais que  ele representava, preparando os seus mostruários. Nesses  mostruários, existiam mercadorias de tamanho maior e outras menores. As primeiras eram negociadas apenas pelos mostruários, enquanto as outras, eram de pronta entrega.
Enquanto esperavam tio Julio,  que levava dias providenciando os seus contatos, Papai e tio Rubens(outro irmão de Mamãe), ficavam dias e dias, ouvindo as transmissões da Copa do Mundo de futebol , através do rádio Mullard, pertencente a Vovô Manta.
Papai e tio Rubinho não se comunicavam pelos seus próprios nomes e sim, pelo apelido “jaco”,que nunca soube o que significava. Lembro-me bem de um pequeno diálogo travado entre os dois ,à respeito de um jogo da referida Copa.
Disse Papai a tio Rubens:
--- Jaco, o que você achou do resultado entre Brasil e Polônia?
---Jaco, aqueles  6 a 5 para nós, depois da prorrogação em 4 a 4, mostraram aos demais países, que estamos na briga pelo título.



Até então, eu não entendia nada de futebol, mas gostava de vê-los conversando e torcendo, apesar da péssima audição proporcionada pelo rádio de vovô Manta.
Dias depois, lendo o jornal A Tarde, fiquei sabendo que a Itália, sagrara-se bi- campeã de futebol , enquanto o Brasil ,ficara em apenas terceiro lugar.
Tio Julio,  era uma pessoa magnifica. De boa índole, caráter íntegro, bondoso, muito calmo, ostentava a profissão de  COMETA,  levando mercadorias das casas comerciais de Salvador, para vendê-las no interior da Bahia e no norte de Minas Gerais. Nessas viagens, ela gastava não menos do que quatro meses. Mas dessa vez, saindo em companhia de Papai, partiram logo no primeiro dia de julho de 1938 e por dois motivos e  voltaram em meados de outubro. O primeiro ,era que Tia Edite estava grávida do primeiro filho e o segundo para saber da decisão final de Papai. O local escolhido pelos dois, unanimemente, foi uma Vila pertencente ao Município de Poções, chamada de Iguaí. Então ficou acertado que Papai ainda sozinho, retornaria  a Iguaí logo nos primeiros dias de janeiro de 1939 e que ficaria hospedado na pensão de uma senhora, conhecida por Dona Raquel.                           





Na véspera de Natal, nasceu Antônio Natalino Manta Dantas, filho de tio Julio e tia Edite.
Pelas leituras que fazia periodicamente no jornal A Tarde, comecei também, a ouvir  as conversas entre vovô Manta, Mamãe, tia Edite e tia Dulce e às vezes tio Nadinho, quando lá aparecia, à respeito das escaramuças na Europa, que redundavam na possibilidade de uma nova guerra.
Em fevereiro de 1939, vovô Manta foi promovido a capitão médico e como tal teria que viajar ao interior da Bahia  , Alagoas e Sergipe, pois as  MILÍCIAS dos três Estados, estavam à procura do bando de Lampião. Vovô como médico atenderia somente aos feridos.       
À partir de então, todas as noites, chegava um soldado depois das dezenove horas e ficava à serviço de Vovô, no que ele precisasse. Praticamente, ele gostava do serviço, pois a maior parte do seu tempo, era preenchido com as minhas brincadeiras.
José Dias, era o ORDENANÇA que mais comparecia e com o passar do tempo, foi ganhando muita afeição por mim, porque enquanto o pessoal ficava na sala  de jantar, conversando, lendo jornais ou simplesmente ouvindo as notícias, pelo rádio, ficávamos nós dois, no corredor  sendo que ele ficava sentado numa cadeira e eu me movimentando jogando GUDES de um lado para o outro.


COMETA: Pessoa, animal ou coisa que não permanece muito tempo num só lugar, surgindo e desaparecendo de repente.
MILÍCIAS: Arte militar. Força militar. Corpo de homens armados para fazer um serviço particular.
ORDENANÇA: Soldado que fica a disposição de um oficial.
GUDES: Jogo com bolinhas de  vidro que os jogadores  devem fazer para as mesmas entrarem  em buracos ou na falta destes, para derrubar  outros objetos menores.



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

AUTOBIOGRAFIA DE IRUNDY DIAS (p 1 e 2)

Muito se tem escrito em pequenas notas de jornais, sobre a história de Poções.
O trabalho que estou me propondo, não é o de relatar por ouvir dizer, mas, sim e tão somente, a vivência
do dia a dia, desde a época que passei aqui, algumas horas, em outubro de 1939 e na sequência, outras inúmeras horas, quando de minhas viagens a Salvador, vindo de Iguaí, ou vice-versa,na continuação dos meus estudos.
É claro que, para dar ciência da evolução desta cidade, nestes últimos setenta e poucos anos, terei que colocar presente e bem anexa, a minha autobiografia.
Que autor seria eu, se fosse escrever dados sobre Poções e os meus mais conhecidos habitantes, se
OMITISSE a minha presença ?
De certa forma, nesse período de tempo, muitos personagens foram esquecidos, como também fatos de menor importância  .
Certa vez, o meu irmão Affonso, que Deus o tenha guardado em bom lugar, disse-me:
---"Dydy", (é como ele me tratava), porque você não escreve a sua autobiografia ?
Respondi quase que de imediato:
---"Fonso"(era como eu o tratava),publicar poesias é um trabalho bem mais fácil.Você reune alguma coisa
que escreveu, sobre assuntos os mais diversos possíveis, corrige, vai a tipografia, imprime e depois sai distribuindo aqui e  ali aos seus amigos e conhecidos. Escrever a minha autobiografia,é um trabalho penoso, pois terei que rebuscar no passado, tudo aquilo que a minha memória puder trazer ao presente, juntando pedacinhos da minha infância, da minha adolescência, ligando fatos e personagens, muitas vezes esquecidos...
Mas no meio dessa resposta, apareceu um outro detalhe:
---Quem irá interessar-se em saber o que eu fui , o que eu sou, a não ser alguns familiares bem chegados
a mim e uns amigos de bons laços ?
Mas Affonso insistiu:
--- Dydy reflita comigo. Nós viemos de muda para Poções em 1950, quando Papai trouxe a família de Iguaí, para cá. Você ,como irmão mais velho , passou pelas primeira vez por esta Cidade  em fins de 1939.
Porque então você não associa a sua autobiografia, ao desenvolvimento de Poções, desde aquelas datas
arté aos dias de hoje?




OMITISSE – Do verbo omitir .Deixar de fazer . dizer, mencionar ou escrever(algo)

                                                                      x.x.x


Pesquisei e vivenciei fatos dos setores sociais , estudantis, esportivos, políticos, enfim tudo o que fosse
necessário para o conjunto dessa obra.
Poções, de chão de terra batido, da década de 30, que à luz do sol, quando soprava uma mínima quantidade de vento, deixava nuvens de poeira ao redor, ou na época das chuvas intensas, alagava ruas e praças, apresentando um grosso lamaçal.
Os poucos carros, puxados por parelhas de bois,  que percorriam as nossa vias, com aquele rangido característico das rodas de madeira, eram costumeiramente os melhores veículos que a Cidade dispunha.
As carroças puxadas por um único burrinho, apareciam  em segundo plano.
E as noites ?
Poções era servida(ou mal servida), com uma luz TÊNUE, produzida pelo trabalho de um motorzinho
movido a óleo, que funcionava das 18 às 24 horas, com um detalhe de que faltando dez minutos, para o encerramento daquele serviço, um rápido sinal era dado, com o piscar das lâmpadas.
Quando Affonso terminou a sua fala insistindo para que eu iniciasse a minha autobiografia resolvi experimentar e aqui vamos nós:
Primeiramente vou apresentar os meus pais, e meus avós paternos e maternos:
Papai; Dr. Ary Alves Dias, médico, nascido a 2 de setembro de 1904 e falecido a primeiro de novembro de 1980.( 76 anos). Vou chama-lo assim em toda a narrativa, pois foi desse modo, que sempre  o tratei, em nossas conversações. O detalhe principal: Papai com P maiúsculo.
Mamãe:Olinda Manta Dias, doméstica, com primeiro grau incompleto, nascida a 31 de maio de 1906 e
falecida a 16  de maio de 1997( 91 anos).
Ambos nascidos em São Félix - Bahia e casaram-se em 11 de maio de 1929.
Avós paternos: Dr. Afonso Alves Dias - Engenheiro da Estrada de Ferro da Leste Brasileiro e Isaltina da
Costa Alves Dias,doméstica e entre a sua prole, Papai foi o quinto.
Avós maternos:Dr. José da Silva Neves Manta, médico e Capitão da Polícia Militar do Estado da Bahia e
Amália Seixas Manta,. doméstica,sendo Mamãe, a quinta.filha.
Nos primeiros meses de casados, a convite de vovô Afonso,os meus pais foram residir com eles e a caçula de minhas tias, por nome Moema,já com 13 anos, ao notar já a barriguinha de mamãe começando a crescer
ficava insinuando:
---"Essa criança vai nascer no dia do meu aniversário, 17 de fevereiro"

TÊNUE : Que é delgado, fraco , sutil , leve ,ligeiro, de pouco valor ou importância.

                                                         x.x.x


O nosso parentesco com o poeta Castro Alves, veio através de minha bisavó Odília, mãe de vovó Isaltina,que era prima dele.Daí ,todos os descendentes  por parte de meus avós paternos tiveram o Alves em um dos sobrenomes,
Decorrido um certo tempo de estada em casa dos meus avós paternos, eis que os avós maternos, reivindicaram a nossa presença com eles,desde quando meu avô Manta, sendo médico, ele mesmo queria fazer o parto da própria filha. Todos eles residiam na península itapagipana e bem próximos por sinal.
Meus avós maternos ocupavam uma casa lugada à rua Álvaro Cova, próxima a Igreja da Penha, enquanto
vovô Afonso e família ficaram situados a Avenida Beira Bar.
Papai ,era balconista da Casa de ferragens Eduardo Fernandes, localizada na Cidade Baixa, perto do Plano Inclinado, onde trabalhava das oito às 17 horas. Ele "subia" num  BONDE , logo cedo. Almoçava lá mesmo e só voltava para casa ,quando encerrava o seu serviço, à tardinha. Como possuía outras aspirações, nas
horas de folga, estudava para fazer os exames preparatórios, hoje chamados de vestibular.Basta frisar, que as linhas de bonde que faziam o percurso da parte baixa do Elevador Lacerda até a Ribeira e vice-versa, os
passageiros perdiam um tempo exagerado e por isso mesmo, Papai ia pela manhã ao trabalho e só retornava quase ao escurecer.
No dia 17 de fevereiro de 1930, tal qual tia Moema havia pedido, precisamente ao meio dia ,nas mãos hábeis do Dr Manta, Mamãe deu a luz a um garotinho robusto, bonito pra caramba, cheiroso e que as tias
Licinha, Edite e Dulce ficaram babando para pegá-lo. Irundy , como foi registado posteriormente,veio ao mundo, para felicidade de todos.Papai só tomou conhecimento do fato, ao retornar do trabalho à noite.
Meses depois , fui batizado na Igreja da Penha, tendo como padrinhos, vovô Manta, vovó Amália e tia Licinha.
Em 1931, quando eu estava aniversariando pela primeira vez, Papai brindou a todos,  sendo aprovado nos Exames preparatórios do Curso de Medicina. Ele e os proprietários da Casa Comercial Eduardo Fernandes,entraram num acordo pra que só trabalhasse num turno, a fim de não perder as aulas da Faculdade de Medicina, que era pertinho. Papai subia para a Cidade Alta, pelo Plano Inclinado, saltava na Praça da Sé e dali seguia andando até o Terreiro, onde ficava a antiga Faculdade de Medicina.
A vidinha deles dois foi seguindo em frente e as minhas irmãs começaram a surgir de dois em dois anos.
Eliaci em 1932, Aryolinda em 1934 e Nair em 1936, quando também ocorreu, o falecimento de Eliaci.
Nesse intervalo de tempo, toda a família de vovô Manta  mudou-se para a rua da Poeira ,57.

BONDE:Veículo ferroviário elétrico, destinado ao transporte urbano e suburbano de passageiros.


                                                          x.x.x

Já sabendo ler as notícias  dos jornais, em março de 1936, fui matriculado no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, onde tia Dulce estava concluindo o seu Curso de Magistério.
Ao final do ano de 1936, Papai formou-se em Medicina e aí o pessoal da casa, resolveu fazer um pequena comemoração
Para ficar mais próximo dos familiares, o meu tio Arnaldo(Nadinho), mudou-se para a mesma rua no número 40 e por isso mesmo, o filho mais velho, por nome Inaldo, me fazia companhia até a escola, todos os dias.
A casa onde moramos na rua da Poeira, 57, possuía um andar térreo, ocupado por outra família e nós ficávamos no primeiro e segundo andares. Era um sobrado.
Certa feita, como  os banheiros dos dois andares estavam ocupados, dirigi-me a um banheiro ,que ficava no quintal, logo abaixo da janela da cozinha, que quase ninguém usava, pois descia-se dois lances de escada, com mais de vinte degraus em cada uma.
Descendo-se o primeiro lance chega-se a um pequeno patamar, onde a pessoa teria duas opções: indo pela esquerda, descia-se ainda uns quatro degraus seguindo para a porta da rua. Tomando a parte da direita, é que descia-se mais 20 degraus em direção ao quintal. Desci o primeiro lance e quando galguei os primeiros quatro degraus do segundo lance, avistei um individuo, junto a uma das paredes cortando uns canos de chumbo de um encanamento antigo. De imediato, perguntei:
--- Que é que você está fazendo aí , moço ?
---Aqui não é a casa do Sr. Matias ? --- respondeu ele
---Matias? Aqui é a casa do Dr. Manta, médico da polícia militar
---É que eu recebi ordens , para vir cortar esse canos de chumbo sem uso...
Depois desse pequeno diálogo , desci mais rápido pelos degraus que ainda faltavam, até chegar em frente ao banheiro e virando-me para cima, gritei bem alto:
---Joana, Joana! Acode aqui em baixo , que tem um ladrão tentando roubar o encanamento.
Ao ouvir as minhas palavras, o ladrão largou de imediato, tudo o que estava fazendo e correu para cima, pela escada, a fim de fugir. Da parte debaixo onde eu estava, ainda presenciei Joana chegando à tempo de dar um SAFANÃO no ladrão, que mesmo assim, ainda saiu correndo em direção a rua.                                             

De  passagem, quero apresentar a cozinheira Joana, que participou dessa história.

Era um preta de mais ou menos uns trinta anos, alta e robusta. Devia pesar entre setenta a oitenta quilos. Vocês já pensaram  como deve ter doído o que o malandro, recebeu do safanão dela, no encontro que tiveram entre os dois no patamar da escada?

SAFANÃO : Tapa forte com a mão aberta. Choque forte; empurrão, tranco



                                                         x.x.x






                                        





sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Você sabia ? ( curtas)

                                            Você sabia ?

... que  certo dentista, que residiu aqui em Poções, por algum tempo, recebeu num dia de sábado, a visita de um rapaz que ao chegar no consultório , foi logo indagando:
---Quanto é uma dentadura, doutor?
--- Estou fazendo atualmente  por um mil e duzentos cruzeiros.
--- O senhor não faz por cem cruzeiros ?
O dentista olhou-o de alto a baixo e em seguida respondeu:
---Sabe  de uma coisa ! Eu fui com a sua cara e vou fazer a dentadura por cem cruzeiros, contanto que você pague adiantado.
O rapaz prontamente meteu a mão no bolso, retirando de lá os cem cruzeiros e pagou.
O dentista encaminhou-o á cadeira e de imediato tirou o molde, dizendo para o rapaz voltar antes do meio dia.
No intervalo, o dentista preparou uma placa base, com cera cor de rosa, colocando os dentes um por um, bem arrumadinhos, de acordo com a articulação feita no modelo.
Antes do meio dia, o rapaz chegou todo alegre e foi novamente reconduzido à cadeira. O dentista passou  água na tal "dentadura", colocando em seguida um pó chamado COREGA, que serve para fixar bem.
Concluído o serviço, deu um espelho para que o rapaz admirasse e segundos depois foi embora .
Passados uns quarenta minutos, eis que surge novamente o rapaz, retirando do bolso um pano e dentro estavam  vários dentes misturados com cera rosa.
---Doutor --- foi logo dizendo o rapaz ---eu fui ali na feira "tomar" um café com requeijão e veja bem o resultado !
O dentista calmamente respondeu
--- Você não quiz uma dentadura a cem cruzeiros ? É esta aí ! estamos quites ...
ATENÇÃO:  NÃO É PIADA. ESSE FATO ACONTECEU MESMO , AQUI EM POÇÕES

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Receitas de Dona Nó( doce de banana)


Doce de banana


,
,
4.5




INGREDIENTES

15 BANANAS   D'ÁGUA,     BEM GRANDES  E EXTREMAMENTE MADURAS

SUCO DE DUAS LARANJAS MADURAS

UM  QUILO DE AÇUCAR

MODO DE PREPARO

  1. CORTE AS BANANAS  EM RODELAS.
  2. JUNTE O AÇUCAR E O SUCO DAS LARAN JAS
  3. COZINHE EM FOGO MÉDIO, MEXENDO SEMPRE  ATÉ  QUE  COMECE  A  SOLTAR DO  FUNDO  DA  PANELA.
  4. COLOQUE EM UMA COMPOTEIRA E SIVA GELADO.
  5. HÁ PESSOAS QUE GOSTAM DE ADICIONAR CREME  DE  LEITE COM RASPAS DE LIMÃO.( QUE É OPCIONAL NO CASO)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Receita de Dona Nó(abobrinhas recheadas)


Abobrinha recheada



,
  • 2 abobrinhas grandes
  • 100 g queijo mussarela ou prato (ralado)
  • 500 g carne moída (de preferência patinho)
  • 1 tomate grande
  • 1 cebola pequena
  • 1/2 pimentão vermelho pequeno
  • 1/2 pimentão amarelo pequeno
  • 1/2 pimentão verde pequeno
  • Queijo parmesão (ralado) - a gosto
  • Pimenta-do-reino branca - a gosto
  • Sal - a gosto

MODO DE PREPARO

    No Forno Micro-ondas:
    1. Corte as abobrinhas no sentido do comprimento e leve ao forno micro-ondas em um recipiente com tampa próprio para uso neste forno
    2. Deixe 5 minutos, retire e verifique se ela está macia, se não estiver deixe mais 2 minutos até que a parte interna esteja molinha, então reserve e deixe esfriar um pouco
    3. Quando já estiver morna, raspe o miolo com uma colher e reserve, a abobrinha já raspada ficará como "canoas"
    No Fogão:
    1. Cozinhe as abobrinhas com água e uma colher de café de sal, por aproximadamente uns 10 minutos, retire o miolo e coloque com cuidado as "canoas" em um recipiente com água fria e gelo, aguarde até resfriar e retire
    2. Isso é para a casca não amolecer muito e continuar "al dente"
    3. Picar em cubos pequenos (média de 0,5 cm) o tomate (sem pele e sem sementes), a cebola, o pimentão vermelho, o pimentão amarelo e o pimentão verde
    4. Misture a carne moída e o sal, frite e então acrescente misturando bem o tomate, a cebola, o pimentão vermelho, o pimentão amarelo, pimentão verde, a pimenta-do-reino branca e o miolo da abobrinha, deixe fritar um pouco até dourar sem desmanchar os legumes
    5. Coloque as "canoas" das abobrinhas em um refratário e recheie com a carne, salpique bem levemente o queijo ralado tipo parmesão, então distribua a mussarela/queijo prato de forma uniforme cuidando de cobrir as bordas da abobrinha
    6. Se preferir, salpique orégano
    7. Asse em forno preaquecido por volta de 180ºC até dourar levemente o queijo ou leve ao forno micro-ondas até derreter o queijo

    Receitas de Dona Nó(ALMÔNDEGAS)


    Almôndegas

    INGREDIENTES

    • 500 g de carne moída
    • 2 colheres de sopa de azeite de oliva (30 ml)
    • 1 xícara de cebola bem picada (60 g)
    • 1 ovo
    • 150 g de farinha de rosca
    • Sal a gosto
    • Pimenta-do-reino a gosto
    • 395 g de molho de tomate




    MODO DE PREPARO

    1. Misture a carne com o ovo, a cebola, o sal, um pouco de azeite de oliva (ou óleo) e a pimenta
    2. Agregue a farinha até dar o ponto de enrolar as almôndegas
    3. Faça pequenas bolinhas
    4. Em uma panela com um pouco de azeite, frite as almôndegas selando-as em fogo alto
    5. Retire as almôndegas e reserve
    6. Em outra panela esquente o molho de tomate em fogo baixo
    7. Na mesma panela da almôndega, elimine o excesso de azeite e coloque o molho de tomate, colocando as almôndegas para cozinhar por alguns minutos
    8. Em cerca de 15 minutos as almôndegas estarão totalmente cozidas e o prato estará pronto

    domingo, 13 de janeiro de 2013

    História verídica dos PRIMEIROS ANOS DO GINÁSIO DE POÇÕES.

    Esta é uma história verídica,  iniciada em meados  de 1957, á respeito  de como começaram os preparativos, para o início do curso ginasial em Poções.

                                                         Você sabia  ?
    que alguns pais que tinham algum recurso financeiro, colocavam os seus filhos a estudar no Ginásio Taylor Egídio em Jaguaquara(que era o melhor na época, por essas bandas) ou em algum outro em Vitória da Conquista ?
    que outros pais que também tinham parentes nessas cidades citadas, enviavam os seus pupilos, para dar-lhes
    mais ensinamentos?
    O que ocorria então em Poções ?
    As crianças concluíam o curso primário e desde quando os pais não tinham algum recurso, ou por não possuírem parentes fora desta cidade, deixavam simplesmente de estudar. Poções, por sua vez, crescia vagarosamente, mas crescia...
    Os intelectuais, os comerciantes, as pessoas de um bom tino administrativo e outros de boa vontade, começaram a fazer um movimento até que houve a criação da FUNDAÇÃO GINÁSIO DE POÇÕES,
    órgão, que mais tarde, viria a ser o responsável, pela implantação do curso ginasial nesta cidade.
    Mas o Brasil daquela época, quando se fala em BUROCRACIA, NÃO MUDOU AINDA EM NADA.
    Diz a Enciclopédia  que :"BUROCRACIA é uma morosidade e exigências formais no desempenho dos serviços públicos".
    Pois a tal da burocracia emperrava o andamento dos papéis nas repartições estaduais de tal modo ,que dois amigos nossos Hidelbrando Alves Rocha (Deco) e Antonio Castro  Dourado Primo,( Seu Dourado ), residentes em Salvador, mas com vínculos fincados nesta terra, se desdobraram para conseguir o andamento da papelada. Depois, veio a parte física. Onde iria ficar  instalado o ginásio?Como conseguiriam  os funcionários principais? E o  mais importante: onde encontrar o corpo docente? E nessa lenga lenga, nesse sobe e desce, o tempo corria célere.  E 1957 foi embora.
    O Ano de 1958 começou e os trabalhos entraram novamente naquele ritmo de vamos, vamos...
    Todos nós sabemos de longas datas, que o brasileiro é 100% esportista. E o que veio pela frente ?
    Campeonato Mundial de Futebol a ser realizado no mês de junho, na Suécia. O Brasil foi campeão pela primeira vez, com Garrinchas,  Pelés, Zagallos e outros. Até aí tudo bem. O Brasil inteirinho eufórico !
    E a nossa papelada? . Meio ano já ficara para trás. Será que 1958 iria seguir também os passos do seu antecessor 1957?
    Em setembro, Noélia  e  eu achamos de juntar os nossos trapinhos.
    Em outubro, soubemos por vias atravessadas, que os nossos nomes constavam de uma lista preliminar para ser aprovada e as reuniões  se sucediam quase diariamente, pois o ano estava a terminar e a aprovação do Conselho Estadual de Educação, sempre formalizava os seus projetos até o final de outubro, para que então a Secretaria Estadual de Educação desse o parecer final,  concedendo o funcionamento da abertura dos Ginásios para o ano imediatamente seguinte.
    Ainda em outubro, uma senhora e outro funcionário estadual vieram a Poções e Nova Canaã, para fiscalizarem as instalações dos prédios onde iriam  funcionar os futuros ginásios.Aqui em Poções, foi escolhido o Prédio onde funcionava o Grupo Escolar Isaías Alves.
    Felizmente a papelada ficou em ordem e Noélia e eu, fomos escolhidos a principio, para fazer parte da banca examinadora dos Exames de Admissão  e aí começou a ficar preta a posição da Direção da Fundação Ginásio de Poções em relação aos futuros professores. Numa reunião de muita conversa mole, ficou esclarecido que apenas o Diretor, a Secretária e o Auxiliar de limpeza e disciplina, iriam receber um salário modesto, para poder o Ginásio caminhar com os seus próprios pés. Os professores ensinariam gratuitamente, até que as coisas melhorassem.
    Para início de conversa, disseram, que em novembro, nós professores, daríamos aulas gratuitas aos candidatos ao exame de admissão, para que ficassem mais envolvidos nos assuntos principais. O local escolhido foi o Grupo Escolar Alexandre Porfírio e todos os dias das 15 às 17 horas ,estava lá o grupo encarregado, para ministrar e dar os pormenores de como seriam os exames de admissão.Tais preparativos foram estendidos até às vésperas do Natal. Iniciado o ano de 1959, fomos avisados que do dia 10 até 20 de janeiro, repetiríamos a dose, para que todos os candidatos ficassem bem "afiados", como se diz na gíria.
    Nesse ínterim, houve uma excursão de um grupo de desportistas daqui, para a cidade de Salinas, ao norte de Minas Gerais, onde passamos três dias, num congraçamento sócio-esportivo.
    Ao regressarmos, soubermos também, que as datas dos exames já haviam sido marcadas para os meados de fevereiro e que estaria nesta Cidade para orientar todo o pessoal, um funcionário graduado do Conselho Estadual de Educação, que também iria a Nova Canaã, porque as datas escolhidas foram as mesmas ,para poupar tempo.
    Finalmente chegou o dia 16 de fevereiro, uma segunda-feira e às 8 horas foram realizadas as provas escritas de Português e Matemática, ambas eliminatórias.No dia seguinte, para os candidatos que ultrapassaram a primeira barreira, as provas também escritas,  de Geografia, História do Brasil e Ciências.Nos dias seguintes realizaram-se as provas orais com os meninos ainda tensos, mas a turma da banca examinadora,deixou-os mais à vontade, com piadinhas, a fim de tornar o ambiente bem agradável.
    Uns dois dias após, o resultado favoreceu à vinte e cinco jovens entre 13 e 18 anos, que de imediato juntaram a papelada, para a matricula á primeira série do curso ginasial.
    Numa reunião, logo depois dos exames, nós professores, fomos cientificados, pela Diretoria da Fundação Ginásio de Poções, ( e faço questão de colocar tudo isso em letras maiúsculas para que sempre a população de Poções se recorde desse detalhe que) DURANTE DOIS ANOS SEGUIDOS IRÍAMOS LECIONAR GRATUITAMENTE A FIM DE QUE O GINÁSIO PUDESSE IR AVANTE.
    MAS NÃO FORAM DOIS ANOS! FORAM SIM, TRÊS ANOS CONSECUTIVOS: 1959, 1960 E 1961.
            
                                          FIM  DA  PRIMEIRA   PARTE.



                                         SEGUNDA PARTE
    CONTINUAÇÃO DO RELATO, AINDA COM DETALHES ANTERIORES AOS EXAMES DE ADMISSÃO.
                                         
    Um fato interessante ocorreu comigo dois dias antes, do início dos exames das provas escritas. 
    O Conselho Estadual de Educação, incumbiu a um dos seus membros efetivos a vir até Poções, para supervisionar e ao mesmo tempo orientar as bancas examinadoras desta Cidade e de Nova Canaã, na pessoa do Dr Othoniel de Almeida Moura, por sinal, irmão . do nosso Juiz da Comarca, Dr. Ignácio de Almeida Moura.
    Ao chegar em Poções, ele foi recebido pela  Diretoria da Fundação Ginásio de Poções e promoveu logo uma reunião, principalmente com os componentes da banca examinadora para saber do conteúdo das provas.
    Na minha vez, ao ler os dez quesitos da prova, ele reservadamente cochichou ao meu ouvido:
    "--- Professor, refaça esses dez quesitos, pois dessa forma, ninguém será aprovado."
    Naquela mesma noite de sábado, refiz a prova e no domingo, procurei-o e tornei a mostrá-lo. Ele riu bondosamente e disse-me:
    "---Meu caro doutor, mesmo assim ,muita gente ainda será reprovada."
    É claro que nós professores,entramos naquela tarefa, para colaborar, mas de maneira alguma, iríamos "abrir a cancela", pois os aprovados, seriam daqui há alguns dias, os nossos alunos e nós teríamos  que aguentar pelo ano inteiro, grande parte de ineptos.
    Felizmente, para todos, os aprovados, demonstraram boa aptidão, bem interessados, com bom comportamento,proporcionando aos professores, um excelente trabalho pedagógico.
    O Diretor, por nome Dr. José Carlos Peixoto Pereira, um dentista recém chegado a Poções, em companhia de sua esposa, foram incumbidos de lecionar Português e História do Brasil,respectivamente. Matemática, coube aqui, ao Papai, que na época,não entendia nada da parte pedagógica. Eu só queria ensinar , demonstrando que a ciência dos números, por enquanto, estava em boas mãos. Geografia, ficou entregue ao nosso velho  amigo ,Dr. Alcides Pinheiro dos Reis, que depois de um ano e meio, veio a se tornar o segundo Diretor do Ginásio, visto que o Dr. José Carlos, como dentista, não estava tendo clientes suficientes para continuar nesta Cidade. Ciências foi ministrada até certo tempo, pelo Dr. Antonio Rocco Libonati , médico, recém formado, filho de uma das mais ilustres famílias italianas, na pessoa do seu pai, Américo Libonati.  Desenho, coube á minha  esposa  Noélia. Canto Orfeônico , à minha comadre, a Professora Irene Nápoli Lamego . As línguas Francês e Latim ficaram sob a responsabilidade do nosso amigo Clóvis Pereira Junior, que diga-se de passagem, durante os primeiros anos da História do Ginásio em Poções, foi um dos grandes baluartes para que tudo desse certo .Com esse corpo docente formado, iniciamos a nossa batalha.
    Uma certa noite fomos avisados de uma reunião com a Diretoria da Fundação Ginásio Poções, onde nos comunicaram, que tendo em vista uma doação que a Prefeitura fizera a Fundação,de um terreno que se estendia até à Rio- Bahia, que brevemente, nós seríamos agraciados com um lote, para compensar o esforço que teríamos de fazer nos próximos anos.
    Vale também, aqui ressaltarmos, que nesses primeiros três anos de ensino gratuito, por parte dos professores, outros amigos nossos, deram a sua parcela de colaboração, sempre visando que a ideia vingasse e que o curso continuasse firme.Apelando agora, para a nossa memória, iremos citar que durante o período dito inicial, houve sempre algumas mudanças, visto que alguns dos titulares se ausentavam. Assim, em certa época, contamos com o apoio decisivo e inestimável da Professora Madalena Curvêlo, do seu irmão, José Otávio Curvêlo, há pouco tempo atrás, Prefeito de Itapetinga.   Com o queridíssimo jovem(que o vi desde quando estava com três  anos de idade) ,Carlos Ney Dias Messias, falecido nas praias de Fortaleza, quando tentou salvar uma jovem de afogamento e morreu com ela. O nosso mano
    Affonso Manta, também falecido, que também forneceu muitos subsídios históricos, durante o pouco tempo que ajudou ao Ginásio. O Sargento Severino Bispo dos Santos, com altos e baixos, deu também a sua colaboração.Um belga, que sofrera horrores durante a Segunda Guerra Mundial, apareceu por aqui, não se sabe vindo de onde e prestou também a sua ajuda, lecionou Francês por algum tempo, com aquele sotaque bem fechado,  característico da própria Língua e referindo-se ao aluno Paulo Silva Dantas, dizia:
    "--- Pôlo!
    Não nos esquecemos também da valiosa contribuição do Dr. Mário Sabino Costa.
    Mais adiante, contamos com a valiosíssima ajuda da Professora Maria da Glória Macedo da Conceição, que por anos afora, tornou-se  uma das maiores mestras do ensino, nesta terra abençoada pelo Divino Espírito Santo.E por aí afora, seguiu-se uma lista interminável de pessoas gradas e de alto espírito, que em certa ocasião, num daqueles desfiles memoráveis  de 7 de setembro, fizemos uma homenagem, onde cada grupo de dois alunos, levava o nome dos ex-professores escritos numa faixa, alusiva aos serviços, por eles prestados à comunidade.
    Com o decorrer do tempo, fomos verificando que a Diretoria da Fundação Ginásio de Poções, foi ficando omissa, nos principais  assuntos financeiros. Provavelmente, eles já haviam cumprido e bem o seu papel desbravador e naqueles momentos,estavam tentando passar o timão, a outros .
    Ressalte-se, que a verba arrecadada mensalmente, pelo pagamento, que os pais faziam, para custear o estudo dos seus filhos, mal dava para efetuar o pagamento da folha do Diretor,da Secretária e do Zelador, além das pequenas despesas com material escolar, de limpeza e outras menores, porém necessárias.
    Convivemos assim, nesse ambiente, por larga temporada, até que em dezembro de 1961,já próximo ao Natal, ou seja 2 anos e 10 meses, após a largada inicial, sem sabermos o motivo, fomos convidados pelo  Prefeito Olímpio Lacerda Rolim e como grata surpresa, cada professor, recebeu a importância de um mil e quinhentos cruzeiros.
    Mas, à partir de 1962, com a aprovação da Câmara de Vereadores de Poções, o Sr Prefeito, incluiu no Orçamento, uma verba, para pagamento mensal aos Professores, uma gratificação pequena,mas que terminava de uma vez por todas, aquele serviço de gratuidade.
    ISSO, FOI SÓ O PRINCÍPIO...


                                                  FIM   DA   SEGUNDA PARTE.


                                                  TERCEIRA PARTE
    CONVÍVIO   COM   OS   ALUNOS, SEUS ANSEIOS  ,  SUAS  BUSCAS ,  SUAS REALIZAÇÕES.

    Em 1959, quando foram iniciadas as aulas no mês de março, com a turma de 25 alunos, na primeira série ginasial, em pouco tempo, foram absorvendo o novo tipo de ensino. Eles que estavam acostumados, a lidar com apenas um professor, que lhes ensinavam todas as disciplinas, estavam agora, às voltas com vários tipos de pessoas, onde cada uma delas, possuía o seu modo de lecionar, ou de transmitir o conteúdo de cada matéria do currículo escolar.
    Ainda no mês de março, se organizaram para fundar o grêmio estudantil ,ainda sem estatuto, mas com o nome de Ruy Barbosa escolhido,com o presidente Carlos Ferreira Santos também eleito por unanimidade,enfim um grupo decidido a levar avante o nome da classe estudantil. Através de um oficio, escrito a mão e assinado por todos os componentes da turma, comunicaram a sua decisão, ao Diretor do Ginásio e  reforçaram dizendo verbalmente aquilo que eles estavam em mente. Mas os dias se passaram e como eu lecionava duas  aulas seguidas, em certa manhã, quando eu estava terminando a primeira aula, o Presidente do Grêmio, levantou-se e disse- me que os colegas queriam conversar comigo, à respeito de como organizar o grêmio e o que mais ocorresse. O certo, é que depois de uma conversa animada, onde trocamos várias idéias, ficamos de ir em grupo até a  Prefeitura Municipal a conversar com o Prefeito Olimpio Rolim , a fim de pedir ao mesmo, um espaço de terreno de  mais ou menos seis metros quadrados, para que durante os festejos do Divino Espírito Santo. pudéssemos armar uma quermesse.
    Dias depois, o Ginásio recebeu um convite, endereçado ao Diretor, para que no final de abril, num dia  de domingo, fôssemos a Nova Canaã, passar algumas horas com os alunos da primeira série do Ginásio Florestal e lá participássemos de um jogo de voleibol  e das competições de saltos em altura e distância.
    No convite,  especificava ainda, que no time de voleibol misto, poderiam ser incluídos três elementos não pertencentes ao Ginásio, por que nem todos os alunos, sabiam  praticar o tal esporte.
    Embora cientes daquele convite, o fato é que o pessoal estava focado na organização da quermesse e as idéias se multiplicavam a cada dia que passava. Alguns  dias, saímos à tarde pelo comércio, solicitando brindes, dados ou emprestados, que seriam colocados à venda ou simplesmente através de rifas.
    Inventamos um tal de "correio sentimental", onde cada pessoa poderia mandar uma mensagem, pagando  naturalmente, uma pequena taxa pelo serviço.
    Quando estávamos próximos da ida a Nova Canaã, o Diretor simplesmente disse que não poderia ir e abriu vaga para quem estivesse disposto a acompanhar os alunos. Organizamos então, o grupo com todos os alunos. Acompanhando-os, fomos: Clóvis Pereira Junior ( o Nino), que também era o professor de Educação Física, Noélia e eu.   O Prefeito  Olimpio Rolim, forneceu o caminhão com o motorista e lá fomos nós.
    Em Nova Canaã, fomos recebidos por um grupo de Professores que nos levaram até ao Ginásio Florestal.onde desfrutamos de um lauto café matinal. O resto da manhã, foi descontraído, com conversas de todos os tipos, mais associadas ao desempenho dos nossos trabalhos escolares.
    Almoçamos e após o descanso regulamentar, os estudantes foram participar das competições esportivas.
    Perdemos em salto em altura mas  vencemos em salto em distância, com a performance espetacular da nossa aluna Lucia Maria da Silva. A partida de voleibol não chegou ao fim, pois Nino não concordou com o time que entrou em quadra para jogar contra os nossos alunos. Eram pessoas totalmente estranhas ao  corpo discente do Ginásio Florestal. A fim de não haver briga, a partida foi encerrada mal havia começado.
    O Ginásio de Poções, através do Sr. Diretor, ficou de retribuir a visita e até hoje,2013, ninguém lembrou-se de tal fato, sucedido ainda em 1959.
    Chegamos finalmente aos dias da festas do Divino.Armamos em plena praça, próxima ao serviço de som do parque, uma barraca retangular, com 3 metros de comprimento na frente e no fundo e com 2 metros em cada lateral.Cobrimos com uma lona emprestada. Colocamos uma mesa grande no centro, com os objetos que havíamos conseguido dias atrás no comércio local.Para o pessoal não se cansar e também desfrutar dos dias das festas, fizemos um serviço de revezamento entre os alunos, onde todos com a máxima boa vontade, saiam vendendo bilhetes das rifas, enquanto outros permaneciam dentro da barraca,vendendo objetos e enviando mensagens através do serviço de alto falantes do parque.
    Foram dez noites de intensa labuta, mas os resultados saíram satisfatórios. Dos objetos vendidos, nós tiramos o lucro, e o restante, pagamos aos proprietários, como também, a mercadoria encalhada, restituímos aos respectivos donos.
    O certo é que, uma pequena importância foi amealhada o que deu ânimo a todos ,a repetir o sucesso inicial nos anos subsequentes.
    E aí em 1960, com a nova turma de primeira série ginasial, começou a ciumada em cima de mim. Certo dia, em plena aula de matemática, uma garota, levantou-se da cadeira e me disse:
    ---Dr. Irundy, o senhor gosta mais da turma da segunda série, não é mesmo ?
    Aí eu fui explicar com toda a minha calma, que não era aquilo que ela ou os demais, estavam pensando de mim.
    ---No ano passado, ninguém se levantou para ajudá-los. Fiquei com eles o tempo todo e não é justo que esse ano eu os abandone, só porque vocês chegaram como calouros. Não quero ciumadas. Vou ajudá-los, assim como fiz com a turma da segunda série. É só terem paciência.
    E de fato, para não  haver concorrência entre as duas turmas, quando chegamos à época das festas do Divino, a turma da primeira série armou uma barraca quermesse nos mesmos moldes do ano anterior, enquanto a turma da segunda série, colocou a funcionar uma barraca igual às outras que sempre funcionaram, com mesinhas, cadeiras, balcão para atendimento geral, geladeira e um som horrível, que ficava ligado enquanto o do parque não funcionava. Então, com aquele mesmo revezamento já feito em 1959, todos trabalharam e se divertiram sem nenhuma queixa. Para evitar novamente a ciumada, eu me revezava, passando um tempinho aqui e outro ali e aconselhando  sempre a uns e outros.
    Findos os trabalhos, a quinta série ficou satisfeita com o resultado e a sexta mais ainda,  pois embora o trabalho fosse maior, o lucro então, superou o arrecadado no ano anterior.
    E essa história repetiu-se em 1961, já com mais uma turma em andamento, até que à partir de 1962, os próprios alunos chegaram a um acordo, que para ninguém prejudicar as turmas mais adiantadas, somente aquelas, armariam a barraca na festa do Divino. Com essa resolução tomada pelos alunos, fiquei mais tranquilo, pois durante as Festas, eu já não sabia direito a quem atender.
    Então, antes das férias de junho/julho de 1962, os alunos da quarte série ginasial, promoveram uma reunião para que depois do recesso escolar do meio do ano,entrassem de vez com um novo plano.
    E o Papai aqui teve a ideia e falei com  eles  o seguinte:
    ---Como a barraca da festa sempre foi um ganho seguro, porque não lançarmos o Concurso da Rainha da Primavera com votos vendidos a um cruzeiro cada. Para isso ,entretanto,o primeiro passo é procurar as meninas que estejam dispostas a nos ajudar.
    Na volta às aulas, uma garota da primeira série, por nome Margarida Maria Nunes de Sá, prontificou-se a vender os votos. Às vezes saía acompanhada de colegas e na maioria de suas investidas, pedia os votos sozinha. E não apareceu mais ninguém para ajudar. Como eram votos vendidos, não houve necessidade de se saber quem ganhou,pois ela, Margarida foi a primeira rainha da primavera do ginásio de Poções. E não me recordo se houve mais alguma com esse mesmo título.
    O tempo passou e ao iniciar-se o mês de novembro de 1962, um novo pedido veio a tona, através de minha pessoa. Vale frisar, que o Diretor José Carlos, já havia se mudado com a família para  outra cidade e a Diretoria foi ocupada por Dr. Alcides Pinheiro dos Reis, que não se opôs ao pedido feito pela turma da quarta série.
    Por iniciativa da turma,resolveu-se que, dez dos alunos  se prontificaram a participar de um passeio
    à Salvador, que na época era chamado de" EMBAIXADA". Os dez alunos, à pedido dos próprios pais só iriam, se fossem acompanhados de professores. Então, de comum acordo, os alunos escolheram
    para acompanhá-los, Dr. Irundy, Professora Noélia e Margarida, esta última ,como gratidão aos serviços prestados à turma.Formou-se então, a EMBAIXADA com 13 pessoas.
    O pedido feito ao Dr.Alcides foi o de:  antecipar as provas finais da turma, ou então deixar para fazê-las quando voltassem do passeio. Prevaleceu a última hipótese.
    Para que todos os leitores tenham a exata noção de como as coisas eram difíceis naquela época, vale salientar nesse episódio, que durante quatro anos, desde 1959 até novembro de 1962, os alunos da quarta série ginasial, conseguiram "juntar", a importância  de pouco mais de OITENTA E DOIS MIL CRUZEIROS.
    Em Salvador, um amigo nosso ,casado com a filha do Sr Alcides Fagundes, por apelido BEQUINHO, fez um precinho camarada para a turma; 32 mil cruzeiros por três dias de hospedagem, com direito a dormida, café da manhã, almoço e jantar, para as treze pessoas da EMBAIXADA.
    Separamos também, o dinheiro das passagens de ônibus, táxis e despesas necessárias para a viagem de ida  e de volta.
    O restante seria gasto nos passeios. Com a inteira confiança deles em minha pessoa, todo o dinheiro foi  entregue a mim, para que eu me incumbisse de efetuar todos os gastos .Então uma outra preocupação: a de anotar num papel, tudo o que era efetuado como despesa geral. Cada qual, separadamente, levara algum dinheirinho para seus gastos pessoais .
    De início, fomos na manhã de sexta feira à Igreja do Bomfim, para que eles conhecessem e ao mesmo tempo agradecer por tudo o que alcançaram, desde o ingresso a primeira série ginasial e a sucessão de acertos e erros, que se seguiram durante os quatro anos de estudos  e  trabalhos para chegarem até ali.
    Conheceram o Porto da Barra(indo à praia, é claro) , Amaralina e Itapoã.
    Deixamos para o domingo, um passeio à ilha de Itaparica,ficando naquele recanto paradisíaco, o dia todo.
    Ao regressarmos, muita alegria, sem nenhum acontecimento que desabonasse a conduta de qualquer um dos participantes.
    No primeiro reencontro em plena sala de aula, fiz a prestação de contas, com tudo anotadinho, centavo por centavo, e dei-lhes uma boa surpresa. Havia sobrado a pequena importância de dois mil cruzeiros e alguns centavos. O que fazer  ?
    Rapidamente apareceu a solução. Fazer uma festinha de despedida da turma toda. E fizeram!
    Observações finais:
    Em 1959, ano em que o curso ginasial foi iniciado em Poções, serviu de entrada para que todos os alunos, ano após ano, se voltassem a organizar durante as festas do Divino Espírito Santo, as tradicionais barracas dos estudantes, cuja melhoria foi se acentuando com o decorrer do tempo. Na época, onde se implantou a luz negra, nos reservados das barracas, a afluência era bem maior, porque os casais iam ali para desfrutar alguns momentos de boa dança, na maior seriedade, mesmo porque havia a vigilância severa dos próprios donos. Mas o Monsenhor Honorato, só achava de fazer as suas implicações contra os estudantes, chegando ao ponto de incluir no seu sermão. as suas palavras de desconforto para os alunos do Ginásio.E esse detalhe que estou frisando aqui, surgiu desde o tempo inicial, quando as meninas iam se exercitar nas aulas de Educação Física, e ele, ficava com o seu binóculo, sentado na sua varanda, olhando de lá , procurando descobrir, se alguma garota estava seminua ou coisa parecida,atentando aos bons costumes. E por aí afora, nunca ouvimos dele, alguma palavra de apoio ou de elogio.Essa mágoa que todos nós ficamos, foi se dissipando com o tempo, pois fomos aprendendo, que com todo o trabalho saudável que apresentávamos, sempre havia uma nesga de insatisfação.
    Durante anos e anos, outras turmas se organizaram, com passeios ao Rio de Janeiro, por duas vezes, Porto Seguro, algumas excursões e dezenas e dezenas de passeios, com toda a moralidade possível, por esse Brasil afora.
    De minha parte, quero concluir, que sempre me dediquei com todo o amor  possível, vendo o colégio crescer, ajudando dentro de minhas parcas possibilidades.
    Em 1964, a Fundação Ginásio de Poções, deixou de existir e passou as rédeas do comando a antiga Campanha Nacional de Educandários Gratuitos(CNEG), que de gratuidade não tinha nada, chegando até nós, as maiores críticas feitas por pais, ou responsáveis, pelos alunos matriculados.Os próprios dirigentes
    sentindo em todas as partes do Brasil, aquele acumulo de críticas, resolveram algum tempo depois, mudar a sigla e o sistema de funcionamento, passando a ser conhecida por CNEC (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade).
    E foi assim minha gente, a história de como começou o ginásio nesta TERRA DO DIVINO.

    OBRIGADO PELA ATENÇÃO.