segunda-feira, 8 de abril de 2013

Autobiografia de Irundy Dias( p 17 )

Nos dias que antecederam a minha viagem a Poções, subimos ao telhado do quarto de vovô Manta, para empinar arraia, pois há muito tempo não o fazíamos. Natalino era um expert naquele esporte e ficávamos um tempão desfrutando daqueles bons momentos de lazer. Às vezes quando não tínhamos uma arraia boa, jogávamos um barandão numa outra que estivesse passando por perto e assim ninguém descobria a nossa falcatrua. Ligeiramente vamos a uma explicação à respeito dos dois termos aplicados nesta narrativa. { Empinar é um verbo utilizado entre os aficionados no esporte da arraia, que significa você segurar numa linha que está presa numa (pipa ou periquito, estes são  sinônimos da arraia){ O outro termo é barandão que é um pedaço de linha com mais ou menos uns trinta centímetros segura por duas pedras, presas em suas extremidades. Pois bem,  ao chegarmos ao quarto de vovô Manta, subíamos para uma das janelas(eram quatro, sendo uma voltada para o telhado da casa vizinha e as outras três que se situavam para o telhado da sala de jantar). Ao galgarmos a janela, tínhamos o cuidado de pisar somente na parte cimentada, que eram apenas uns cinquenta centímetros de largura. Dali então, íamos empinar as nossas arraias, ou às vezes, uma só e de olho nas que passassem por perto, para funcionar o velho barandão. Era também um ponto estratégico para Orlando, meu primo, conversar com as meninas do 42, que ao saber da presença do mesmo, iam lá para cima a fim de manter aquele papo a distância. Nunca me interessei  nem por Dulce( a mais velha), nem por Ana a mais nova, porque o namoro entre Orlando e  elas não avançava nada . Era apenas aquela conversinha mole, de cima de telhado, sem futuro e que não ia a lugar algum. Eu também achava a Dulce muito metida e a Ana bem magrela. Orlando por sua vez, se deliciava naquele papo, às vezes bem prolongado.
Antes do  Natal, tomei a resolução de regressar a Poções, pois aqui com calma, iria colocando os assuntos de Física, em ordem. Indo até a Faculdade, soube que os horários das provas, estavam programados para os dias 13, 15 e 17, as escritas e 20,22 e 24 as orais, com previsão de resultados em princípios de março.   
Após os festejos natalinos e de Ano Novo, Papai incumbiu-me de ir até Iguaí, dar o balanço anual das mercadorias e o financeiro da farmácia, que continuava funcionando sob a responsabilidade do jovem Netanias Alves Veiga, que por muitos anos foi o seu braço direito. Em apenas dois dias realizamos o serviço, pois o estoque já estava bem diminuído em relação ao que ele deixara em fevereiro do ano anterior.
Voltando a Poções, armei o seguinte esquema de estudos: todas as manhãs revisava, um dia química e no outro, biologia. As tardes, já com todo o material de Física  posto em ordem, estudava com todo o afinco possível. Era interrompido entre três e meia e quatro horas, para a clássica merendinha que Dona Ó trazia religiosamente, dizendo:  “---Dydy trouxe uma comidinha para você, para não ficar fraco. Você está estudando muito e precisa...” As noites, bem livres, não estudava hora nenhuma. Ia passear um pouco e ao saber de algum filme bom,  me dirigia ao Cine Santo Antônio, Mas nesse vai e vem, conheci uma garota por nome Honorina, que residia à Rua Feliz Gaspar, aquela mesma rua, que em julho passado, assistira de perto a cerimônia de casamento do Sr. Octaviano com a senhorita Amélia.

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Como o Carnaval iria cair nos dias 4, 5 e 6 de fevereiro, a direção da faculdade de medicina, achou por bem reunir os cursos de medicina, farmácia e odontologia nas mesmas datas,  facilitando assim a correção das provas escritas que possivelmente seriam entregues aos mesmos professores. Considerando então a proximidade das provas do vestibular, achei por bem retornar a Salvador a partir de 20 de janeiro. Devido às merendas que Mamãe me oferecia todas as tardes, eu que saíra de Salvador com 58 quilos retornei com 74, engordando cerca de 16 quilos, em um mês, praticamente. Só comendo, sem fazer nenhum exercício, só poderia acontecer aquilo.
Em Salvador, fui aos poucos, encontrando-me com os colegas do Vieira e numa seleção de seis deles, resolvemos alugar um automóvel da marca “studebaker”, sem capota., para passearmos no domingo de carnaval à tarde, no trecho  que ia da Praça da Sé até ao Campo Grande e vice-versa, passando pela Rua da Misericórdia, Praça Municipal, Rua Chile, Praça Castro Alves, e Rua Carlos Gomes, tantas vezes quantas fossem necessárias, até que chegasse a hora dos desfile dos Clubes Carnavalescos de então, que eram chamados, se não me falha a memória, de Cruz Vermelha, Inocentes em Progresso e Fantoches da Euterpe. Foi uma tarde esplendorosa, pois além de revermos os colegas, cujo convívio durou cerca de três anos, fizemos uma higiene mental tão eficiente, que provavelmente aquele passeio nos levou a encarar o vestibular de uma maneira não tanto agressiva. Como estava previsto, as provas escritas foram realizadas nas manhãs dos dias 13 Física, 15 Química e 17(meu aniversário), Biologia e as orais, nas manhãs de 20, 22 e 24 seguindo-se a mesma ordem das escritas. Sobre as provas orais, algo interessante devo relatar: na ordem alfabética, estavam Ipê Cana Brasil, Irundy Manta Alves Dias e Isabel Antunes da Silva. Prova de Biologia, 9 horas da manhã. Candidato chamado: Ipê Cana Brasil. Como eu iria ser o próximo, me postei logo numa cadeira, bem atrás do Ipê e praticamente assisti a todo o seu exame. O Professor foi logo dizendo para Ipê:
“---Rapaz, com você não iremos sortear nenhum ponto, pois o seu próprio nome nos dá minúcias do assunto ao qual  estamos nos propondo.”
Senti por uns momentos Ipê se mexer na cadeira, mas acredito que ele já macaco velho na faculdade(havia feito no ano anterior, o primeiro ano de farmácia e estava tentando passar em odontologia)e o Professor começou:
“--- Rapaz, o seu primeiro nome é Ipê. E em Biologia o que você poderá dizer-me sobre esse tipo de madeira?”
Ipê não perdeu tempo. Discorreu sobre a madeira ipê, mais ou menos uns três a quatro minutos, sendo interrompido algumas vezes pelo professor. Depois, o mesmo continuou:
“— Agora você irá me falar sobre o seu sobrenome Cana.”    Ipê continuou ;”---cana, professor é um tipo de colmo...” E aí seguiu com toda a ênfase possível sobre o assunto. Finalmente o Professor, perguntou :  “--- e Brasil, seu último sobrenome, o que você tem a dizer?” Ipê,não perdeu o embalo e simplesmente respondeu: “--- Professor, a prova não é de Biologia ?Brasil é geografia.

                                                 
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Imaginem a espirituosidade do rapaz. Numa hora daquelas, onde a tensão de todos estava no auge, ele sair com aquela resposta...
Visitando a Secretaria da Faculdade, fomos informados que todos os resultados sairiam provavelmente nos primeiros dias de março e as aulas seriam iniciadas nos primeiros dias de abril, quase um mês depois.
Então, como estávamos ansiosamente esperando, o resultado saiu à tardinha do dia 2 de março. Otávio Conceição Mendonça, vizinho da casa em frente à de tia Edite e que também fizera o vestibular para odontologia, foi quem passou lá em casa e avisou para que eu fosse até a Faculdade ver. Desci a Rua do Alvo igual a um foguete. Subi o Pelourinho no mesmo embalo e entrei pela porta lateral, passando perto das salas do Nina Rodrigues. Atravessei os grandes corredores da Faculdade, até chegar a uma pequena área,  onde sempre colocavam avisos de qualquer natureza. Havia um grande aglomerado de rapazes e moças, procurando cada qual saber do seu resultado. As listas, felizmente, estavam dispostas em ordem alfabética e os aprovados, em caracteres azuis. À medida, que aqueles que estavam em minha frente, iam desocupando os lugares, uns pulando de alegria, enquanto outros saíam cabisbaixos e sem sorrisos, fui aproximando-me do quadro. A quantidade de linhas vermelhas era o triplo o ou quádruplo das linhas azuis, mas confiança em mim mesmo era enorme, apesar de que as provas de Física não foram fáceis. Quando cheguei à posição de ler claramente os nomes das pessoas, encontrei na letra I, três nomes: Ipê, Irundy e Isavil, todos com os caracteres azuis. Aí fixei os meus olhos em minhas médias finais: Física 5 , Química 6,5 e Biologia 9,2 e mais adiante, a média final 6,9, ficando colocado em décimo lugar entre os setenta e quatro aprovados. Com o resultado do quadro, saí pulando de alegria e do mesmo jeito que cheguei na Faculdade, esbaforido, voltei para casa onde todos aguardavam apreensivos. Quando abriram a porta, fui logo gritando:
‘---Passei!  Passei!
Natalino com 13,  Carol com 10 e Ceça com 9 anos, os três, filhos de tia Edite, ainda não entendiam a razão daquela minha EUFORIA.   
Meu vizinho da casa em frente, o Otávio, também fora aprovado. No dia seguinte, fui até a Faculdade, levando todos os meus papéis, para efetuar a minha matrícula. Ao sair da Secretaria, alguns veteranos me abordaram com bons modos e me conduziram até a entrada da Faculdade e naquelas escadas mesmo, cortaram o meu cabelo no chamado trote inicial. Ainda me avisaram que aquilo alí, era somente a recepção. O trote mesmo seria organizado, quando as aulas fossem reiniciadas. Dali  rumei até o meu cabelereiro no largo da Saúde, que usando a máquina zero, deixou a minha cabeça completamente pelada.

EUFORIA : Sensação intensa de bem estar e alegria. Demonstração de contentamento e entusiasmo.

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No próprio dia em que efetuei a minha matrícula, encontrei-me com uma namorada Magali, sobrinha de tia Leonor, esposa de tio Rubinho que muito havia me incentivado antes do vestibular. Deu-me parabéns e desejou-me muito sucesso na profissão escolhida. Naquele mesmo dia viajei a Poções, chegando com a cabeça pelada e usando uma boina vermelha, que era usada pelos calouros da faculdade de odontologia. As boinas verde e amarela eram usadas pelos calouros dos cursos de medicina e farmácia respectivamente.
Papai e Mamãe ficaram radiantes quando me viram. Aos meus poucos amigos de Poções, contei a minha façanha. Minha namorada Honorina, não entendeu muito do que estava contando, mas devido á minha esfuziante alegria ela se deu conta, que era algo diferente do que estava habituada a saber no seu dia  a dia. Mas naquele mesmo mês de março de 1951, a família dela viajou para São Paulo e foi a última vez que a ví. Algum tempo depois, soube pela empregada lá de casa, que num certo dia ,quando eu ainda estava em Salvador, ela foi lá em casa e sem Mamãe saber, foi ao meu quarto e deitou-se em minha cama. Agradeceu e foi embora.
A cidade de Poções não apresentara nenhuma mudança radical. A feira livre aos sábados ainda continuava na Praça Deocleciano Teixeira. Por sua vez, Papai ainda com aquele espírito de comerciante, que norteou a sua vida inteira, abriu uma farmácia na esquina do chamado” beco dos Artistas”.
Voltei a Salvador na primeira semana de abril e para azar nosso, houve um incêndio proposital nos gabinetes dentários na sala de clínica, afetando diretamente os colegas do segundo e terceiro anos. Após uma semana de reuniões e o pessoal notando que o Reitor não estava tomando nenhuma providência, todos os diretórios das diversas faculdades, numa assembleia geral, decidiram decretar uma greve geral por trinta dias, quando fizeram uma passeata do Largo do Terreiro, até o Campo Grande. Aproveitando o embalo, foi  realizado o trote geral dos calouros. No largo do Terreiro, antes da passeata, cada calouro ficou encarregado de executar uma missão imposta pelos veteranos. A minha tarefa foi até suave. Colocaram em minha cabeça um chapéu  feito com jornal, me deram um apito e me colocaram num cruzamento da saída do Pelourinho, com o Largo do Terreiro, a fim de que eu comandasse o trânsito naquela artéria. Gostei da missão, mas em certo momento fiquei hesitando, porque vinha um jipão do exército pelo Largo do Terreiro, mas antes dele,  já se apresentara um automóvel, vindo pela transversal. Não tive escolha. Apitei forte e  barrei o jipão. Ao lado do soldado que estava no volante do jipão, vinha uma alta patente do exército, que certamente compreendendo o que estava acontecendo, acenou para que eu me aproximasse do veículo. Quando cheguei bem próximo, ele sorriu para mim e disse:
“---meus parabéns rapaz, por ter sido aprovado no vestibular. Este velho coronel, tem permissão para passar agora ?”
Balancei a cabeça agradecendo pela gentileza de como fui tratado e vendo o caminho livre, apitei bem forte, dando passagem ao jipão, antes que outro veículo surgisse pela transversal do  Pelourinho.  
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sábado, 6 de abril de 2013

Autobiografia de Irundy Dias ( p 16 )


Papai , Mamãe e eu acompanhamos constrangidos até o último minuto o resultado daquele jogo, que a principio nos parecia favorável, mas a garra dos uruguaios, fez prevalecer no resultado final. Saí de lá de casa com a cabeça quente e fui desafogar as minhas mágoas no Clube Social de Poções, que funcionava numa casa alugada ao Sr. José Blois e era situado na velha Praça da Matriz. As matinês dançantes eram realizadas todos os domingos das 16 às 19 horas, naquela casa que foi modificada pela Diretoria, com o consentimento do proprietário. O presidente  do clube era o sargento do Tiro de Guerra, Alfred Jacob François e  mantinha com a sua Diretoria, um esquema, onde todas as tardes dos domingos, eram realizadas as matinês, onde um conjunto musical daqui mesmo, tocava  as melodias mais em moda da época. Nunca havia frequentado aquele ambiente e achei interessante a concorrência bem, grande de rapazes e moças, o que não acontece hoje em dia. E daí pode-se  tirar alguma conclusão: ou o clube não tem capacidade para proporcionar aos sócios e seus dependentes, horas de lazer em suas dependências ou então, os rapazes e moças de hoje, não querem mais esse tipo de festinha , preferindo mesmo . “assistir” as “bandas” que aprecem por aqui. É verdade, os tempos mudam.
Mas voltando  às matinês. Eu ainda não conhecia ninguém, mas mesmo assim, dancei várias vezes, com diversas mocinhas, porém não sei se elas perceberam, que eu era um dançarino de “MÃO  CHEIA”. Tal performance , foi adquirida nos dancings de Salvador, com garotas profissionais, vindas do Rio de Janeiro e de São Paulo, quando em companhia de Nino( Clóvis Pereira Junior), Humbertão ( Humberto Carlos Neto), Quiquide (Euclides de Souza),íamos aprender diversos  passos de dança, dos mais variados tipos de música, como bolero, rumba, fox, e outras, sendo as mais executadas da época.
Aproveitando as minhas férias, fui então conhecer a cidade de ponta, a ponta, pois nas vezes que passei por aqui, nunca tive uma oportunidade boa, porque preocupado com a continuação da viagem, não me sobrava qualquer tempo. Certo dia,  saí da Praça Deocleciano Teixeira em direção à Rua chamada Itália, por certo, em homenagem a grande colônia italiana instalada na Cidade e principalmente residentes naquela artéria. Naquele mesmo alinhamento, a direita, vi a primeira Igreja Batista  e alguns passos mais adiante, o Grupo  Escolar Alexandre  Porfírio. Indo até o meio da Praça, deparei-me com uma pirâmide de lados triangulares e base hexagonal, tendo em sua volta vários bancos de cimento, que não possuíam encosto. O povo já se  habituara a chamar a tal  pirâmide  de Obelisco e soube posteriormente que ao marcar algum encontro, uma pessoa dizia para a outra: ---“vamos nos encontrar na Praça do Obelisco”. Numa gestão bem mais adiante, certo Prefeito, mandou demolir o obelisco, alegando que  iria reformar a Praça, colocando Parque Infantil, viveiro de peixes, enfim uma parafernália dos diabos.
MÃO CHEIA : ótimo, excelente, perfeito.

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E acontece que, sem fiscalização adequada, primeiramente começaram a roubar os peixinhos, em seguida foram destruindo os brinquedos do parque infantil e como o belisco foi destruído, resultou em que mesmo? Em nada. Você que de vez em quando vai a Prefeitura, ou mesmo, dar um giro ali na praça, observe que não existe mais nada do que tinha. E isso aconteceu a mais de 30 anos e nenhum prefeito achou por bem, em melhorar o visual.
Continuando o meu passeio, ali na Praça, quase confrontando com o Grupo Escolar Alexandre Porfírio, há ainda até hoje, uma casa bem grande  na esquina, que pertencia à família Mascarenhas e eu  soube que  o chefe fora morto com a picada de uma PATRONA.
Voltando ao princípio da Praça, encontramos duas casas vizinhas sendo uma  delas, um prédio assobradado, que por muito tempo  nada funcionou no local, tendo em vista que o povo disse que a casa fora mal construída e poderia cair. Hoje funciona a Prefeitura, sem que tenha havido qualquer distúrbio funcional na estrutura do prédio. Ao lado, existia uma cooperativa entre algumas pessoas. Do outro lado da praça, apareciam nessa ordem, algumas casas, sendo a primeira delas, do Dr. Trindade, um dentista, que não cheguei a conhecer. Vizinha à mesma, uma casa pertencente  à Sociedade União das Classes (SUC)  e mais acima ,a residência da família de Braz Labanca, até chegar na outra esquina, que era  a da família de Saturnino (Ioiô)Macedo.  Dali, partindo em frente, galgava-se a Avenida Peixoto Junior, com algumas casas salteadas ao longo do seu trajeto e seguindo-se  ainda mais adiante, chegava-se a uma estrada de cascalho, que era a chamada Rio Bahia, hoje bem asfaltada. Retornando ao Grupo Escolar Alexandre Porfírio, dobrando-se à direita, chegava-se ao “Pau da Cruz”, célebre local , onde todos os anos, no sábado da Festa, o  povo com a sua fé  inquebrantável , vai até aquele local, iniciar a “buscada do mastro.”
De volta à Praça Deocleciano Teixeira, tomando-se o setor leste, segui por uma ponte de madeira e soube que naquela direção ,ia-se a Morrinhos, um distrito de Poções, que por muitas vezes será citado em nossas narrações e percorrendo a estrada de rodagem, vai-se aos municípios de Nova Canaã, Iguaí e Ibicuí.
Paralelamente à Praça Deocleciano Teixeira, há outra Praça, chamada Góes Calmon, ainda com poucas casas construídas e seguindo-se em direção à Rua São José, passei por outras casas com melhor aspecto, como as residências de Cícero Gusmão, Otávio  Curvêlo, Nercides Andrade e Arnulfo Ramos Silva. Antes de chegar-se à Rua São José, havia um caminho íngreme que conduzia até os bairros do Tigre e do Açude, com casas bem distantes umas das outras, com um povoamento ainda incipiente.

PATRONA : jaracuçu : serpente venenosa de até dois metros de comprimento, encontrada em regiões baixas e alagadiças

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Galgando ainda por aquelas ruas mais afastadas, cheguei novamente ao bairro de Morrinhos. Durante algum tempo, por não haver o Mercado Municipal e também  a Praça Deocleciano Teixeira, não oferecer boa estrutura, os vendedores de diversas mercadorias, especialmente verduras e frutas, escolheram uma das transversais da Rua de Morrinhos, para negociar os seus produtos, alí mesmo ,todas as sextas feiras, após a vendagem, regressavam aos seus locais de origem. Era uma feira antecipada para os munícipes que aos poucos foram transmitindo aos seus parentes, compadres e amigos. Não sei dizer se os prepostos municipais iam até ao local para cobrar os devidos tributos.
Voltando à Praça Deocleciano Teixeira e subindo a ladeira, onde é hoje a Avenida Cônego Pithon, notava-se um grupo de casas em ambos os lados, com o cemitério mais acima e no centro. Dali para cima, mais matagal, até chegar-se à Rio Bahia, por pequenas trilhas, tal qual se faz ainda em certas roças e fazendas.
No setor sul da cidade, nada a acrescentar, pois a Rua da Conquista existia só o nome. As casas eram encontradas muito distantes umas das outras e devido ao grande comprimento da própria rua, ir até  aquele logradouro, somente para quem ali morasse ou tivesse algum parente.
Pois essa, era a Poções que eu conheci  em meados de 1950.
Basta salientar, que qualquer cidadão necessitando de algo mais, que aqui não era encontrado  teria que se  deslocar até Vitória da Conquista, num ônibus, que nos dias normais, fazia o percurso entre três a quatro horas. Lá, se não estivesse com muita pressa, aproveitava o pouco tempo que lhe sobrava, para visitar os parentes e amigos mais chegados. Em caso contrário, se necessitasse  de ir ao médico ou ao dentista, ficaria até o dia seguinte, nas mesmas condições de demora, rezando para o pneu não furar, ou o motor apresentar algum defeito, para lhe ATAZANAR mais o juízo. Alguns anos depois, já namorando Noélia, ainda alcancei aquele mesmo esquema citado nas linhas acima.
No dia 20 de julho, soube, por ouvir alguns comentários, que o Sr. João Gusmão Ferraz,  mais conhecido por Jambinho,  iria casar uma de suas filhas, por nome Amélia, com o Sr. Octaviano Santos Moreira e os “ comes e bebes”, seria na própria residência da família, situada à Rua Félix Gaspar, hoje conhecida por Olímpio Lacerda Rolim, em virtude de que esse senhor, residiu na referia rua por muitos e muitos anos e foi também um Prefeitos da Cidade. Dirigi-me ao local indicado e notei  logo de primeira, que o passeio era bem mais alto do que o nível da rua e por isso em certo trecho, havia uma escadinha com dois degraus, que facilitava a qualquer pessoa  locomover-se até o alto. O casamento em si  já fora oficializado, pois algumas garotas com bandejas na mão, saíam da casa e vinham até ao passeio servir bebidas e comidas aos PENETRAS .Era mesmo, como dia o refrão da música de Erasmo Carlos:”uma festa de arromba”.


ATAZANAR: Atenazar; aborrecer. azucrinar, maltratar; provocar dor.


PENETRAS: Individuo que entra ou que chega a uma festa sem ser convidado

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Papai, como sempre antissocial, recebera o convite do pai da noiva e nada comentou lá em casa Sem saber do ocorrido, fui até lá, como disse em linhas acima e banquei o penetra, como muitos que ali se encontravam. Nunca foi do meu feitio, ir a qualquer lugar sem ser convidado. Apenas discretamente fiquei do lado de fora e como ninguém  me conhecia, passei desapercebido como um JOÃO NIN GUÉM  e me servi  generosamente de todas as iguarias, que passaram ao meu redor. Aí por volta das 23 horas, quando observei que muitos dos convidados se retiravam do recinto, achei por bem retornar á minha casa..
No dia seguinte, domingo, como era de hábito de Papai, almoçar religiosamente ao meio dia, logo depois, do cafezinho, fui até à janela, fumar um cigarrinho, quando avistei duas garotas que vinham pelo passeio conversando e uma delas, parecia até, estar um pouco zangada. Uma delas estava com uns quinze anos e a outra aparentava uns doze. Só mais adiante é que eu soube que a de 15 anos, chamava-se Nicinha e outra, da carinha meio zangada, era irmã da Amélia, que havia se casado. Chamava-se Noélia e estava com a carinha amarrada, porque o seu pai naquela hora, achou por bem em convidar algumas famílias para o almoço de congraçamento.
Observei que as duas garotas entraram pelo portão e subiram as escadas da casa, onde residíamos. Fui atendê-las e a garota por nome Noélia assim se expressou:
“---Boa tarde. Meu pai, mandou avisá-los que o almoço do casamento de minha irmã Amélia, será servido daqui  há pouco.”
Agradeci  pelo  convite, sentindo nas palavras da garota, que o pai delas havia realizado um casamento para ninguém botar defeito, pois além de realizar aquela recepção na noite anterior, ainda iria oferecer almoço aos convidados. Quando as garotas foram embora, dirigi-me ao quarto onde Mamãe tirava um princípio de sua soneca e comentando sobre o convite, ela me respondeu:
“---Seu pai, sempre foi antissocial. Moramos onze anos em Iguaí e ele nunca foi capaz de levar-me a algum casamento, ou outra qualquer festividade.”
Terminadas as férias do meio do ano de 1950, regressei a Salvador para concluir o meu curso colegial no Antônio Vieira, onde ao final do ano ganhei cinco medalhas de primeiro lugar, cujo feito já foi registrado em linhas atrás.
A fim de enfrentar o vestibular, já me achava bem preparado em Química e Biologia mesmo porque tive os melhores professores da cidade, na época, nas pessoas do Padre Borginha em Química e o célebre padre Camilo Torrend em Biologia. Quanto à Física, essa foi a asa negra de todos os alunos do Vieira, porque nos três anos consecutivos, não ficamos com o mesmo professor. Cada um que chegava, expunha o assunto à sua maneira e vivenciamos uma tremenda mistura de fórmulas e conceitos que nos deixou, bem atrapalhados.


JOÃO NINGUÉM : homem sem importância alguma. Zé ninguém. Zé dos anzóis.

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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Autobiografia de Irundy Dias ( p 15 )

Chegamos aqui em  Poções, na carroceria de um caminhão, com todos os objetos de muda, incluindo as galinhas de Mamãe. Tezinha, a moça natural de Maragogipe, que fora levada por Tio Julio, não quis nos acompanhar e ficou residindo por lá mesmo.

Há poucos dias atrás, fizera 20 anos e já contava nos dedos os dias que faltavam para retornar a Salvador, para concluir o meu curso colegial. O vestibular seria realizado em fevereiro de 1951 e estava a um ano para enfrentar o desafio. Mas as minhas aulas só iriam recomeçar nos primeiros dias de março. Nesta cidade, estava praticamente sem ambiente social. As pessoas que conhecia eram: Bernardo Messias e família, de quem fui hóspede numa certa feita; Arlindo Carvalho, sua esposa e seu filho Hélio, proprietários da pensão que muito me serviu durante as várias vezes que transitei, quando de minhas viagens escolares; Deusdete Fagundes, que numa outra ocasião, levou-me até o ponto, onde ficava estacionado um veículo que me levou até Iguaí. Para não ficar naquele marasmo total, todas as noites me deslocava até o Cine Santo Antônio e numa quinta feira, antes do meu regresso, ainda paguei menos, porque havia uma tal de SOIRÊ perfumada. Uma semana rapidamente se passou e estava de volta ao Vieira, para cursar o terceiro ano colegial.
Mas à medida que os dias se passavam, um espetáculo que todos os povos esperavam e que por causa da guerra mundial, ficaram tolhidos de assistir, era a Copa do Mundo de Futebol. O Brasil, fora escolhido para sediar os jogos, tendo em  vista que os países da Europa, com a maior parte de suas cidades bombardeadas, apresentando um ´povo sofrido e sem ânimo, não teriam condições de arcar com a responsabilidade de um campeonato de grande vulto. Em vista disso, a FIFA, não promoveu jogos eliminatórios e simplesmente convidou 15 países a fim de concorrer juntamente com o Brasil. Para dar maior grandeza ao evento, foi inaugurado o Estádio do Maracanã, o maior do mundo, para servir de palco de alguns jogos como também do jogo final. Como o brasileiro tem o futebol misturado no seu sangue, nesse período que antecedeu a Copa, não se falava em outra coisa, entre os meses de março a maio, pois a mesma terminaria no dia 16 de julho. Por sua vez, a direção do Vieira, compreendeu que a Copa, iria atrapalhar o rendimento escolar dos seus alunos, resolveu, com a aquiescência dos Professores e Funcionários, antecipar as férias, começando-as  entre os dias 10, 11 e 12 , a depender do número de disciplinas de cada turma. As aulas só seriam reiniciadas em meados de julho, depois de realizado o último jogo..

SOIRÊ: palavra francesa que significa à tardinha, já anoitecendo.

FIFA: (Federation Internationale de Football Association), entidade máxima mundial, com sede em Zurique, Suíça. Organiza a Copa do Mundo e o torneio dos Jogos Olímpicos.


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Assim que terminaram as provas do primeiro semestre, regressei a Poções a fim de acompanhar pelo rádio todos os jogos da Copa, principalmente os da nossa seleção. Não vieram os 15 países convidados pela Fifa, só comparecendo 12. E o torneio mundial foi iniciado no dia 24 de junho: Eis  abaixo a tabela completa com os seus jogos e todos os demais resultados, numa competição, onde todos os brasileiros esperavam gritar bem alto “somos campeões” e nada disso aconteceu
Grupo 1
Classificado para a semifinal

Pos.
Seleção
Pts
J
V
E
D
GP
GC
SG
1
5
3
2
1
0
8
2
6
2
4
3
2
0
1
7
3
4
3
3
3
1
1
1
4
6
-2
4
0
3
0
0
3
2
10
-8

4 – 0

15:00
Ademir Descrição: Gol marcado aos 30 minutos de jogo 30', Descrição: Gol marcado aos 79 minutos de jogo 79'
Jair Descrição: Gol marcado aos 65 minutos de jogo 65'
Baltazar Descrição: Gol marcado aos 71 minutos de jogo 71'



3 – 0

18:00
Mitić Descrição: Gol marcado aos 59 minutos de jogo 59'
Tomašević Descrição: Gol marcado aos 70 minutos de jogo 70'
Ognjanov Descrição: Gol marcado aos 84 minutos de jogo 84'



28 de Junho de 1950
15:00
2–2





Alfredo 3'
Baltazar 43'
Fatton 17', 88'


28 de junho de 1950
18:15
1–4



Ortiz 89' pen
Bobek 20'
Z. Čajkovski 23', 51'
Tomašević 80'


1 de julho de 1950
15:00
2–0

Ademir 4'
Zizinho 89'



2 de julho de 1950
15:40
1–2

Casarín 89'
Bader 10'
Antenen 44'
[editar]Grupo 2
Time
Pts
J
V
E
D
GF
GS
SG
6
3
3
0
0
6
1
5
2
3
1
0
2
2
2
0
2
3
1
0
2
5
6
-1
2
3
1
0
2
4
8
-4

25 de junho de 1950
15:00
2–0

Mortensen 27'
Mannion 51'



25 de junho de 1950
15:00
3–1

Basora 75', 78'
Zarra 85'
J. Souza 17'


29 de Junho de 1950
15:00
2–0

Basora 17'
Zarra 30'



29 de junho de 1950
18:00
1–0
Gaetjens 38'



2 de julho de 1950
15:00
1–0

Zarra 48'



2 de julho de 1950
18:00
5–2

Robledo 16'
Riera 32'
Cremaschi 54', 82'
Prieto 60'
Wallace 47'
J. Souza 48' pen
[editar]Grupo 3
Time
Pts
J
V
E
D
GF
GS
SG
3
2
1
1
0
5
4
1
2
2
1
0
1
4
3
1
1
2
0
1
1
2
4
-2

25 de junho de 1950
15:00
3–2

Jeppsson 25', 68'
Andersson 33'


28 de junho de 1950
15:30
2–2

Sundqvist 24'
Palmer 26'
A. López 32'
C. López 89'


2 de julho de 1950
15:00
2–0


·         Descrição: Índia Índia desistiu
[editar]Grupo 4
Time
Pts
J
V
E
D
GF
GS
SG
2
1
1
0
0
8
0
8
0
1
0
0
1
0
8
-8

2 de julho de 1950
18:00
8–0
Míguez 14', 45', 56'
Vidal 18'
Schiaffino 23', 59'
Pérez 73'
Ghiggia 83'

·         Descrição: Flag of Turkey.svg Turquia e Descrição: Flag of Scotland.svg Escócia desistiram.
[editar]Quadrangular final
Time
Pts
J
V
E
D
GF
GS
SG
5
3
2
1
0
7
5
2
4
3
2
0
1
14
4
10
2
3
1
0
2
6
11
-5
1
3
0
1
2
4
11
-7

9 de julho de 1950
15:00
7–1

Ademir 17', 36', 52', 58'
Chico 39', 88'
Maneca 85'
Andersson 67' pen


9 de julho de 1950
15:00
2–2
Basora 32', 39'


13 de julho de 1950
15:00
6–1

Ademir 15', 57'
Jair 21'
Chico 31', 55'
Zizinho 67'
Silvestre 71'


13 de julho de 1950
15:00
3–2

Ghiggia 39'
Míguez 77', 85'
Palmer 5'
Sundqvist 40'


16 de julho de 1950
15:00
3–1
Sundqvist 15'
Mellberg 33'
Palmer 80'
Zarra 82'


16 de julho de 1950
15:00
Descrição: Brasil Brasil         Final

Schiaffino 66'
Ghiggia 79'
Friaça 47'



    Uruguai bicampeão mundial de futebol ( 1930 e 1950)